sexta-feira, 19 de setembro de 2008

"Metade de mim é japonês e metade e mim é brasileiro"


No ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, o Jornal O MONTEIRO entrevista um descendente que se diz divido entre as culturas do Brasil e do Japão.
Filho de imigrantes japoneses, o condômino Mario Okada ainda preserva alguns traços da cultura oriental. Seus pais vieram ainda crianças ao Brasil, através da parceria entre os governos dos dois países. Assim, a partir de 1908, o Brasil recebeu os imigrantes que vieram em busca de trabalho, a maioria para trabalhar na agricultura. O objetivo deles era retornar ao país de origem, mas assim como os pais de Okada, muitos acabaram ficando devido aos conflitos da 2ª Guerra Mundial.

O MONTEIRO - Qual a influência da cultura japonesa em sua vida?
A influência da cultura foi aquilo que meus pais passaram. Acredito que a maior influência foi na parte de educação e a valorização, porque eles dão muito valor à pessoa e a respeitar os idosos. Assim, o mais velho cuida do mais novo e o mais novo respeita o mais velho. Também tem as festividades. Hoje a gente não vê aqui em Ponta Grossa muito, porque o número de descendentes é pouco. Mas no norte do Paraná, onde eu morava, tem bastantes festividades Não é bem um carnaval, mas eles tem uma comemoração, com danças típicas, com trajes típicos de lá. Hoje quase não tem escola japonesa aqui, mas antigamente todos iam na escola brasileira, naturalmente, mas também iam na escola japonesa para aprender.

O MONTEIRO - E o senhor freqüentou escolas japonesas?
Freqüentei 3 anos.

O MONTEIRO - Onde o senhor nasceu?
Eu nasci em um sítio em Itambaracá, norte do Paraná. Vim com 21 anos para Ponta Grossa, já completou 35 anos que estou na cidade.

O MONTEIRO - De que cidade seus pais são?
Meu pai nasceu em Osaka no Japão. E a infância dele, ele passou em Fukuoka. Quando ele tinha 10 anos, em 1932, ele veio para o Brasil, no Porto de Santos. Minha mãe nasceu em Hiroshima. Hiroshima todos conhecem porque foi lá que, na Segunda Guerra Mundial, caiu a bomba atômica. Ela chegou no Brasil com quase três anos, em 9 de janeiro de 1933, então de lá ela não lembra praticamente nada.

O MONTEIRO - E os seus pais voltaram para lá?
Não, acabaram ficando. O objetivo era voltar para lá. Mas quando estourou a 2ª Guerra, eles desistiram de voltar e acabaram ficando. Alguns ainda voltaram, mas a grande maioria não voltou. Todos, praticamente ficaram. Um ou outro viaja para lá, mas retornam. Aqueles que vieram, os primeiros, há 100 anos atrás, em 1908 conseguiram voltar.

O MONTEIRO - Como foi sua viagem ao Japão?
Eu fui em 1997 para passear, para conhecer um pouco. Fiquei pouco tempo, vinte dias.

O MONTEIRO - E o senhor sabe falar japonês?
Sei, falar eu sei. Ler e escrever quase nada, muito pouco.

O MONTEIRO - O que mais te chamou a atenção no Japão?
A limpeza chama atenção. Não tem lixo jogado nas ruas, as calçadas, é tudo bem limpo. Outra coisa é a quantidade de bicicletas. Aqui no Brasil a gente vê bastante motos, mas bicicletas não muito. E lá tem muitas, e eles andam de bicicleta em cima da calçada. São milhares de bicicletas, uma do lado da outra. Não sei como que cada um acha sua bicicleta, como que não se perde. Também o trânsito, bastante gente, bastante carro. E lá, se você pára na rua para atravessar, os carros param. Aqui, se você parar, passam por cima de você. Outra coisa foi andar de trem bala e os ônibus que não têm cobrador, só motorista.

O MONTEIRO - O senhor acha importante conhecer a cultura japonesa e preservá-la?
Eu acho que seria importante preservar alguns costumes porque nossos pais vieram do Japão. Eu sou da 2ª geração, meus pais são da 1ª geração e cada vez vai se abrasileirando mais. No final, acaba esquecendo da cultura japonesa. Como sou da 2ª geração, ainda fico dividido, metade de mim é japonês e metade de mim é brasileiro. Metade de mim pensa como japonês e a outra metade como brasileiro. A gente nasceu, cresceu e foi educado aqui e também com os meus pais que ensinaram a cultura de lá, então acaba ficando meio a meio, a gente é um pouco de cada coisa.

O MONTEIRO - Quais as principais diferenças do Brasil com o Japão?
É difícil dizer a diferença, porque eu vivo as duas culturas ao mesmo tempo. Então, tem hora que eu misturo as duas.

O MONTEIRO - Pode-se dizer que o japonês é mais introspectivo?
Acho que não, depende da pessoa mesmo. Essa impressão que o japonês é menos extrovertido é porque eles tinham dificuldade para falar a Língua quando chegaram aqui. Já hoje não, porque todos eles já nascem brasileiros, falando a Língua. Eles são mais reservados, de maneira geral e os brasileiros mais liberais.

O MONTEIRO – O senhor gostaria de retornar ao Japão, morar lá?
Prefiro morar aqui. Lá é bom para passear, fazer turismo. Acredito que aqui é bem melhor, mais tranqüilo. Lá o país é pequeno, bastante gente, é uma loucura, uma correria. Lá só tem sossego quando se aposenta, nem sei se há tranqüilidade quando se aposenta.

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